NO CINEMA | Lucky e a obra do adeus de Harry Dean Stanton

NO CINEMA | Lucky e a obra do adeus de Harry Dean Stanton

Lucky aparece no universo cinematográfico como algo único – quando comparado as produções mais recentes – e impactante graças a sua abordagem temática e diálogos fora do comum. Em sua estreia como diretor, John Carroll Lynch entrega uma sessão com profundidade existencial que há muito não se via. Filmes como Na natureza selvagem (2007) e a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do pôr do sol e Antes da meia-noite (1995, 2004 e 2013, respectivamente) são trabalhos em que os propósitos se assemelham ao novo trabalho da Magnolia Pictures.

A trama se inicia quando, no auge dos seus 90 anos, o ateu Lucky (interpretado por Harry Dean Stanton, que faleceu em setembro deste ano) se dá conta de que o inevitável está próximo. Após um desmaio repentino e sem explicação, a personagem decide mudar completamente sua rotina para que possa viver e aproveitar seus últimos momentos. Assim ele embarca numa jornada espiritual cheia de emoção, filosofias e ressignificados.

A película leva o público – sob uma perspectiva madura pouco abordada – para uma jornada de descobertas e reflexões acerca da verdade por trás do envelhecimento. O elenco majoritariamente mais velho (e com rostos muito conhecidos) faz com que o filme tenha o embalo perfeito para tratar do tema desafiador elaborado por Logan Sparks e Drago Sumonja. Atrelado a isso, o brilhantismo na fotografia, trilha sonora e direção de câmera fazem toda a diferença num projeto artístico como esse. 

NO CINEMA | Lucky e a obra do adeus de Harry Dean StantonAfinal, o que é o vazio? O que o fim representa? Qual a diferença entre “solidão” e ” ser solitário”? Essas três perguntas guiarão a história do velho ateu, envolvendo o público em sua caminhada pelo redescobrimento da vida, quando esta se aproxima do final. Com metáforas muito bem elaboradas, o desenvolvimento fílmico vai funcionar de maneira proporcional as aprendizagens vividas pela personagem principal. A semiótica – ou seja, a explicação por trás dos símbolos imagéticos e audíveis – torna o cigarro fumado por Lucky, a fuga do cágado de Howard (David Lynch), os diálogos no bar de Elaine (Beth Grant), as palavras cruzadas seguidas de idas ao dicionário, entre outras expressões cênicas, uma costura metafórica sublime sobre os ensinamentos propostos pela película.

Assistir Lucky faz com que você perceba que o vazio pode não ser tão assustador; faz notar que o fim não é algo que precisa ser temido, uma vez que ele é mais uma parte da vida – ou, ao menos, parte daqueles que a viveram de verdade. E, quanto a solidão, esta é apenas uma questão de perspectiva.

Desta forma, Harry Dean Stanton deixa, em seu último trabalhos, valiosas lições de vida para gerações futuras. E é com uma atuação magistral que ele perpetua o seu legado como ator numa obra que será lembrada por sua extraordinária qualidade estética, artística e filosófica.

 

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LUCKY 

TRAILER

SINOPSE

Depois de fumar por muito mais tempo que todos os seus conterrâneos, o velho ateu Lucky (Harry Dean Stanton), de 90 anos, está no fim de seus dias, apenas esperando a morte. Vivendo em uma cidade no deserto, ele inicia sua última atividade antes de partir: se autoexplorar para enfim encontrar iluminação.

Escrito por Felipe Aguiar

Estudante de jornalismo curioso e apaixonado por história. Cinéfilo de carteirinha que ama o universo da sétima arte e deseja sempre estar ainda mais imerso nesse mundo.