QUINZE DIAS e a beleza da literatura para jovens adultos

QUINZE DIAS e a beleza da literatura para jovens adultos

Faz muito mais do que quinze dias desde que terminei de ler Quinze Dias. O livro do Vitor Martins, booktuber (o nicho para literatura do YouTube), blogueiro desde antes da existência da palavra e escritor nova-friburguense, traz uma história ótima: Felipe, adolescente, tem um vizinho chamado Caio que ia na piscina com ele na infância. Eles crescem. Caio segue sua vida, Felipe idem. Caio tem suas inseguranças, Felipe idem. Caio é obrigado a ficar quinze dias na casa do Felipe, porque seus pais viajam e sua mãe j-a-m-a-i-s permitiria seu filho adolescente sozinho em casa durante duas semanas e um dia. Eles não passavam tanto tempo juntos desde a piscina, na infância. Felipe é gordo.

No começo da história, você reconhece traços na personalidade de Felipe e Caio que são inerentes a todos os adolescentes que você conhece: insegurança, instabilidade, uma vontade imensa de aprovação e a falta de coragem de encarar a vida de frente – misturado com a coragem de viver tudo o que dizem que existe no mundo. Você reconhece uma mãe incrível na mãe de Felipe e uma mãe neurótica na mãe de Caio – o que não a torna menos incrível.

São quinze dias de duas pessoas completamente diferentes, que passam por dramas completamente diferentes e, mesmo assim, se encontram no meio do caminho.

A construção dos personagens é tão exata que você passa a encontrá-los na sua própria vida quando termina de ler suas histórias. Já saí da adolescência há muitos anos, já faz tempo desde que eu não tinha coragem de dar as caras pro mundo e faz muito tempo que não tenho a menor vontade de descobrir tudo o que existe no mundo, porque quando você deixa de ser adolescente você descobre que tem muita coisa que nem precisa ser descoberta.

Mas você se encontra nos personagens mesmo assim.

 

A BELEZA DA LITERATURA PARA JOVENS ADULTOS 

Os livros para jovens adultos vêm numa onda fortíssima, com todos os tipos de temas e todas as características de todos os tipos de jovens adultos que existem por aí. John Green deu sim a largada para uma porção de escritores que não precisam de embasamento científico nem de palavras rebuscadas para contar uma história. As histórias podem ser contadas como são, imperfeitas como a vida é e tão reais quanto é real passar por todas as fases da vida. O que quero dizer com tudo isso é que você não vai levar quinze dias para ler essa história específica. Você não vai levar nem dois dias úteis, se andar de ônibus em São Paulo. Mas você vai levar essa história com você por muito mais tempo do que duas semanas e um dia.

Porque você vai ler as características dos personagens e vai se lembrar das suas. Porque você vai rir das piadas completamente sem graça e vai se desesperar querendo avisá-lo do que deviam ter te avisado e também não te avisaram. E você vai entender, algumas páginas afrente, que você só aprendeu porque ninguém te avisou – e vai se sentir aliviado por não poder conversar com um livro.

Quinze dias é o tipo de história que te carrega no colo e te faz acreditar que o mundo está cheio de pessoinhas em desenvolvimento com um milhão de medos que todo mundo já teve – e que essas pessoinhas estão crescendo para ser, cada vez mais, pessoas incríveis. Com seus boletos para pagar, suas inseguranças da vida adulta (que geralmente envolvem decoração a baixo custo e códigos de barras incompletos para pagar o aluguel) e seus amores para viver. Quando você terminar esse livro, vai entender que o amor cura as coisas de uma forma que os livros para adultos nunca vão conseguir explicar. E vai agradecer ao Vitor Martins por te dar a oportunidade de visitar a cabeça de um adolescente gordo que é apaixonado pelo vizinho do 57 desde que eles brincavam na piscina.

 

+ LIVRO: OUTROS JEITOS DE USAR A BOCA, DE RUPI KAUR

 

QUINZE DIAS

QUINZE DIAS e a beleza da literatura para jovens adultos

Autor: Vitor Martins
Páginas: 208
Editora: GLOBO Alt
Preço sugerido: R$ 34,90
Formato: 16 x 23 cm

Escrito por Gi Marques

A poesia da contradição escrevendo uma coletânea vitalícia de histórias que vivi e inventei.